sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Orfeu (Cerca de 7.000 a.C.)

 

 

Contempla a natureza divina, ilumina o teu entendimento,
domina o coração, caminha pelas vias da justiça.
Tem sempre perante a tua visão o Deus do Céu.
Ele é o único. Existe por si mesmo e todos os outros seres
 derivam d’Ele e por Ele estão sustidos.
Nenhum mortal jamais o viu, mas Ele tudo vê.
Hino órfico

 

“Como se agitam no imenso universo, como se amontoam
e se procuram essas inúmeras almas
que brotam da Grande Alma do mundo!
Elas vão de um planeta a outro e choram no abismo da pátria perdida...
São as tuas lágrimas Dionísio!...
Oh, Grande Espírito!... Oh, Libertador!...
Faz que as tuas filhas regressem para o teu Seio de Luz”
Fragmento órfico

 

 

Orfeu, nos ensina acima de tudo o AMOR pela Música, pelos animais e pelos vegetais. Na medida em que vivia rodeado pelos bichos, árvores e/ou sua Lira. Reparem o valor que dá aos reinos mineral, vegetal, animal e hominal.
 
"Este depurou completamente e transfigurou o Baco popular em Dionísio celeste, símbolo do espírito divino que evolui através de todos os reinos da natureza."

 

Foi Orfeu, o sagrado intérprete dos deuses,
quem afastou os homens selvagens do assassínio
e do nefando pasto: por isso se dizia que ele
amansara tigres e ferozes leões.

  
São muitos os ensinamentos de Orfeu, mas, devemos ressaltar o monoteísmo andrógino (pai-mãe), a reencarnação referentes a evolução e involução (podemos reencarnar numa forma animal quando usamos apenas o corpo instintivo), a necessidade de renascimento, redenção, e, enfim, a junção com outros almas na esfera (Planeta, astro,...) correspondente. Além da música que nos leva a “Mundos divinos”, ao AMOR por todas as coisas...

 

Por Martha Cibelli
 




ORFEU
Os Mistérios de Dionísio

 

I


A GRÉCIA PRÉ-HISTÓRICA. AS BACANTES.
APARIÇÃO DE ORFEU

 

Nos santuários de Apolo, possuidores da tradição órfica, uma festa misteriosa era celebrada no equinócio da primavera. Era o momento em que os narcisos refloresciam junto da fonte de Castália. Os trípodes e as liras do templo vibravam por si mesmos e supunha-se que o Deus invisível voltava ao país dos hiperbóreos, em seu carro puxadopor cisnes. Então, a grande sacerdotisa, em suas vestes de Musa, coroada de louros, a fronte cingida por faixinhas sagradas, cantava somente para os iniciados o nascimento de Orfeu, filho de Apolo e de uma sacerdotisa do Deus. Ela invocava a alma de Orfeu, pai dos místicos, salvador melodioso dos homens; Orfeu soberano, imortal e três vezes coroado, nos infernos, na terra e no céu; e que vagava trazendo, uma estrela na fronte, entre os astros e os Deuses.

 

O canto místico da sacerdotisa de Delfos fazia alusão a um dos numerosos segredos guardados pelos sacerdotes de Apolo e ignorados pela massa. Orfeu foi o gênio animador da Grécia sagrada, o vivificador de sua alma divina. Sua lira de sete cordas abrange o Universo. Cada uma delas corresponde a uma modalidade da alma humana, contém a lei de uma ciência e de uma arte. Perdemos a chave de sua plena harmonia, mas as diversas tonalidades não deixaram de vibrar em nossos ouvidos.

 

O impulso teúrgico e dionisíaco que Orfeu soube comunicar à Grécia foi transmitido por ela a toda a Europa. Nosso tempo não acredita mais na beleza da vida. Se, apesar de tudo, ainda conserva uma profunda recordação, uma secreta e invencível esperança, deve-o àquele sublime Inspirado. Saudemos nele o grande iniciador da Grécia, o da anarquia, continuava a espezinhar a Ásia. O Egito, muito grande pela ciência de seus sacerdotes e por seus faraós, reagia com todas as forças a essa decomposição universal; mas sua ação se limitava ao Eufrates e ao Mediterrâneo. Israel estabelecia no deserto o princípio do Deus másculo e da unidade divina por meio da voz tonitruante de Moisés; mas a Terra ainda não ouvira seus ecos.

 

A Grécia estava profundamente dividida pela religião e pela política. A península montanhosa, que estende seus finos recortes no Mediterrâneo, rodeada por guirlandas de ilhas, era habitada, há milênios, por um ramo da raça branca, vizinho dos getos, dos citas e dos celtas primitivos. Essa raça sofrera misturas e influências de todas as civilizações anteriores. Colônias da Índia, do Egito, da Fenícia haviam emigrado para suas margens, povoando seus promontórios e vales com raças, divindades e costumes múltiplos. Frotas passavam, velas desdobradas, sob as pernas do colosso de Rodes, assentado sobre os dois diques do porto. O mar das Cíclades, onde, nos dias claros, o navegador sempre vê alguma ilha ou algum rio surgir no horizonte, era sulcado pelas proas vermelhas dos fenícios e pelas proas negras dos piratas da Lídia. Transportavam em suas naus côncavas todas as riquezas da Ásia e da África: marfim, louças pintadas, tecidos da Síria, vasos de ouro, púrpura e pérolas – e muitas vezes mulheres roubadas de Devido aos cruzamentos das raças, tinha-se moldado um idioma harmonioso e fácil, mistura do celta primitivo, do zens, do sânscrito e do fenício. Essa língua, que descrevia a majestade do Oceano no nome de Poseidon e a serenidade do céu no de Uranos, imitava todas as vozes da natureza, desde o gorjeio dos pássaros até o tinir das espadas e o estrondo da tempestade. Era multicor como seu mar de um azul intenso, de tons mutáveis, mas multissoante como as vagas que murmuram em seus golfos ou estrondam sobre os inúmeros recifes – poluphlosboio Thalassa, como diz Homero.

 

Com os mercadores ou piratas vinham muitas vezes sacerdotes, que os dirigiam e comandavam como mestres. Eles escondiam no barco, como uma preciosidade, uma imagem em madeira de uma divindade qualquer. A imagem era grosseiramente esculpida, sem dúvida, e os marujos de então tinham. por ela o mesmo fetichismo que muitos de nossos marinheiros têm por sua madona. Mas esses sacerdotes não eram inferiores no conhecimento de certas ciências, e a divindade que eles carregavam, de seu templo ao país estrangeiro, representava para eles uma concepção da natureza, um conjunto de leis, uma organização civil e religiosa, pois, naquele tempo, toda a vida intelectual provinha dos santuários. Adorava-se Juno em Argos; Artêmis na Arcádia; em Pafos e Corinto, a Astarté fenícia tornara-se Afrodite, nascida da espuma das ondas.

 

Vários iniciadores apareceram na Ática. Uma colônia egípcia tinha trazido a Elêusis o culto de Ísis, sob a forma de Deméter (Ceres), mãe dos Deuses. Erecteu estabelecera, entre o monte Himeto e o Pentélico, o culto de uma deusa virgem, filha do céu azul, amiga da oliveira e da sabedoria. Durante as invasões, ao primeiro sinal de alarme, a população se refugiava na Acrópole e se comprimia em torno da deusa como em torno de uma vitória viva.

 

Acima das divindades locais reinavam alguns deuses masculinos e cosmogônicos. Mas, relegados às altas montanhas, eclipsados pelo cortejo brilhante das divindades femininas, tinham pouca influência. O Deus solar, o Apolo délfico (1) já existia, mas só desempenhava um papel secundário. Havia sacerdotes de Zeus, o Altíssimo, ao pé dos cumes nevados de Ida, nas alturas da Arcádia e sob os carvalhos de Dodone. Contudo, o povo preferia, ao Deus misterioso e universal, as deusas que representavam a natureza em suas potencialidades, sedutoras ou terríveis. Os rios subterrâneos da Arcádia, as cavernas das montanhas que descem até as entranhas da terra, as erupções vulcânicas

nas ilhas do mar Egeu cedo levaram os gregos ao culto das forças misteriosas da terra. Assim, em suas alturas como em suas profundezas, a natureza era pressentida, temida e venerada. Todavia, como todas aquelas divindades não tinham nem centro social, nem síntese religiosa, guerreavam-se aferradamente. Os templos inimigos, as cidades rivais, os povos divididos pelo rito, pela ambição dos sacerdotes e dos reis, odiavam-se, invejavam-se e combatiam-se em lutas sangrentas.

 

Contudo, atrás da Grécia, havia a Trácia selvagem e rude. Para o Norte, fileiras de montanhas cobertas de carvalhos gigantes e coroadas de rochedos, sucediam-se em cumes ondulosos, desenrolavam-se em círculos enormes ou emaranhavam-se em maciços nodosos. Os ventos do setentrião sulcavam seus flancos ramalhados e um céu às vezes tempestuoso varria seus picos. Pastores dos vales e guerreiros das planícies pertenciam àquela forte raça branca, à grande reserva dos dórios da Grécia. Raça varonil por excelência, que se distingue na beleza pela intensidade dos traços, a decisão do caráter e, na fealdade, pelo apavorante e o grandioso que se encontra na máscara das Medusas e das antigas Górgonas.

 

Como todos os povos antigos que receberam sua organização dos Mistérios, como o Egito, Israel e Etrúria, a Grécia teve sua geografia sagrada, onde cada região era o símbolo de uma região puramente intelectual e supraterrestre do espírito. Por que a Trácia (2) teria sido sempre considerada pelos gregos como o país santo por excelência, o

país da luz e a verdadeira pátria das Musas? É que naquelas altas montanhas erguiam-se os mais velhos santuários de Cronos, de Zeus e de Urano. De lá tinham descido, em ritmos eumólpicos, a Poesia, as Leis e as Artes Sacras. Os fabulosos poetas da Trácia são uma prova disso. Os nomes Tâmris, Lino, Anfião talvez correspondam a personagens reais; mas personificam antes de tudo, conforme a linguagem dos templos, gêneros de poesia. Cada um deles consagra a vitória de uma teologia sobre a outra. Nos templos daquela época, só se escrevia a história alegoricamente. O indivíduo não era nada, a doutrina e a obra, tudo. Tâmris, que cantou a guerra dos Titãs, cego pelas Musas, prenuncia a derrota da poesia cosmogônica por meio de versos novos.

 

Lino, que introduziu na Grécia os cantos melancólicos da Ásia e foi morto por Hércules, revestiu a invasão da Trácia de uma poesia lacrimosa, chorosa e voluptuosa, que o espírito viril dos dóricos do Norte logo repeliu. Significa ao mesmo tempo a vitória de um culto lunar sobre um culto solar. Ao contrário, Anfião, que, segundo a lenda alegórica, movia as pedras com seus cantos e construía templos ao som de sua lira, representa a força plástica que a doutrina solar e a poesia dórica ortodoxa exerceram sobre as artes e sobre toda a civilização helênica (3).

 

É outra a luz que irradia Orfeu! Ele brilha através das eras com o raio pessoal de um gênio criador, cuja alma vibra de amor em suas varonis profundezas pelo Eterno-Feminino – e, em suas últimas profundezas também, responde-lhe aquele Eterno-Feminino que vive e palpita sob uma tríplice forma: na Natureza, na Humanidade e no Céu.

 

A adoração dos santuários, a tradição dos iniciados, o grito dos poetas, a voz dos filósofos – e, mais do que todo o resto, sua obra, a Grécia orgânica – são testemunhas de sua realidade viva!

 

Naqueles tempos, a Trácia era atormentada por uma luta tremenda e constante. Os cultos solares e os lunares disputavam a supremacia. A guerra entre os adoradores do Sol e da Lua, não era, como se poderia acreditar, a disputa fútil de duas superstições. Esses dois cultos representavam duas teologias, duas cosmogonias, duas religiões e duas organizações sociais absolutamente opostas. Os cultos uranianos e solares tinham seus templos nas colinas e nas montanhas, sacerdotes masculinos e leis severas. Os cultos lunares reinavam nas florestas, nos vales profundos e tinham mulheres por sacerdotisas, ritos voluptuosos, prática desregrada das artes ocultas e o gosto da excitação orgiástica.

 

Havia uma guerra de morte entre os sacerdotes do Sol e as sacerdotisas da Lua. Luta entre sexos, luta antiga, inevitável, manifesta ou oculta, mas eterna, entre o princípio masculino e o princípio feminino, entre o homem e a mulher, que preenche a história com suas alternativas e na qual se consubstancia o segredo dos mundos. Assim como a fusão perfeita do masculino e do feminino constitui a própria essência e o mistério da divindade, assim também o equilíbrio desses dois princípios pode sozinho produzir as grandes civilizações.

 

Por toda parte, na Trácia como na Grécia, os deuses masculinos, cosmogônicos e solares tinham sido relegados para as altas montanhas, nas regiões desertas. O povo preferia o cortejo inquietante das divindades femininas que evocavam as paixões perigosas e as forças cegas da natureza. Esses cultos atribuíam à divindade suprema o sexo feminino.

Daí começavam já a resultar assustadores abusos. Entre os trácios, as sacerdotisas da Lua ou da tríplice Hécate tinham conquistado a supremacia apropriando-se do velho culto a Baco e imprimindo-lhe um caráter sangrento e temível. Em sinal de sua vitória, elas adotaram o nome de bacantes, marcando assim o seu império, o reinado soberano da mulher e seu domínio sobre o homem. Ao mesmo tempo mágicas, sedutoras e sacrificadoras sangrentas de vítimas humanas, tinham seus santuários em vales selvagens e afastados. Por que sombrio encanto, por que ardente curiosidade homens e mulheres eram atraídos para aquelas solidões de vegetação luxuriante e grandiosa? Formas nuas... danças lascivas no recesso de um bosque... risos, um enorme grito... e cem bacantes investiam contra o estrangeiro para derrubá-lo. Este devia jurar-lhe submissão e submeter-se a seus ritos ou perecer. As bacantes domesticavam panteras e leões, que exibiam em suas festas. À noite, com serpentes enroladas nos braços, elas se prostravam diante da tríplice Hécate; depois, em círculos frenéticos, evocavam Baco subterrâneo, de duplo sexo e com face de touro (4). Mas, infeliz do estrangeiro, infeliz do sacerdote de Júpiter ou de Apolo que viesse espreitá-las. Era feito em pedaços.

 

As bacantes primitivas foram, então, as druidisas da Grécia.

 

Muitos chefes trácios permaneceram fiéis aos velhos cultos masculinos. Porém, as bacantes tinham insinuado a alguns de seus reis que unissem os costumes bárbaros ao luxo e aos refinamentos da Ásia. Seduziram-nos pela volúpia e os dominaram pelo terror. Assim os Deuses dividiram a Trácia em dois campos inimigos. E os sacerdotes de Júpiter e de Apolo, em seus cumes desertos, perseguidos pelo raio, tornavam-se impotentes contra Hécate, que ocupava os vales ardentes e, de suas profundezas, começava a ameaçar os altares dos filhos da luz.

 

Naquela época, aparecera na Trácia um jovem de raça real e de uma sedução maravilhosa. Diziam que era filho de uma sacerdotisa de Apolo. Sua voz melodiosa possuía um encanto estranho. Ele falava nos Deuses com um ritmo novo e parecia inspirado. Sua cabeleira loira, orgulho dos dóricos, caía em ondas douradas pelas espáduas, e a música que vazava de seus lábios emprestava-lhe aos cantos da boca um contorno suave e triste. Os olhos, de um azul profundo, irradiavam força, doçura e magia. Os trácios, invejosos, fugiam a esse olhar. As mulheres, porém, versadas na arte dos encantos, diziam que aqueles olhos misturavam em seu filtro azul as flechas do Sol às carícias da Lua.

 

As próprias bacantes, curiosas de sua beleza, giravam frequentemente em tomo dele como panteras amorosas, vaidosas de sua pele malhada, e sorriam a suas palavras incompreensíveis.

 

Subitamente, aquele jovem, que chamavam de o filho de Apolo, desapareceu. Diziam que tinha morrido e descido aos infernos. No entanto, ele tinha fugido secretamente para a Samotrácia, depois para o Egito, onde solicitara asilo aos sacerdotes de Mênfis. Tendo atravessado os Mistérios, depois de vinte anos ele voltou com um nome iniciático, que havia conquistado com suas provas e recebido de seus mestres, como sinal de sua missão. Chamava-se agora Orfeu ou Arfa (5), que significa aquele que cura pela luz.

 

O mais velho santuário de Júpiter erguia-se, então, sobre o monte Kaukaión. Outrora, seus hierofantes tinham sido grandes pontífices. Do alto daquela montanha, ao abrigo de qualquer ataque, eles tinham reinado sobre toda a Trácia. Mas, desde que as divindades da planície ganharam prestígio, seus adeptos estavam reduzidos a um pequeno número, e seu templo quase abandonado. Os sacerdotes do monte Kaukaión acolheram o iniciado do Egito como um salvador. Por sua ciência e por seu entusiasmo, Orfeu arrebatou a maior parte dos trácios, transformou completamente o culto a Baco e dominou as bacantes. Sua influência logo penetrou em todos os santuários da Grécia. Foi ele quem consagrou a realeza de Zeus na Trácia, a de Apolo em Delfos, onde lançou as bases do tribunal dos Anfictiões, que se tornou a unidade social da Grécia. Enfim, mediante a criação dos Mistérios, ele moldou a alma religiosa de sua pátria. Pois, no ápice da iniciação, ele fundiu a religião de Zeus com a de Dionísio em um pensamento universal. Os iniciados recebiam, através de seus ensinamentos, a pura luz das verdades sublimes. Essa mesma luz chegava ao povo mais atenuada, mas não menos benéfica, sob o véu da poesia e das festas encantadoras. Foi assim que Orfeu se tornou pontífice da Trácia, grande sacerdote do Zeus Olímpico e, para os iniciados, o revelador do Dionísio celeste.

 

(1). Segundo a tradição dos trácios, a poesia tinha sido inventada por Olen. Ora, este nome quer dizer em fenício o Ser universal. Apolo tem a mesma raiz. Ap Olen ou Ap Wholen significa Pai universal. Primitivamente adorava-se em Delfos o Ser universal sob o nome de Olen. O culto de Apolo foi introduzido por um sacerdote inovador, sob a influência da doutrina do verbo solar que percorria, então, os santuários da Índia e do Egito. Esse reformador identificou o Pai universal com sua dupla manifestação: a luz hiperfísica e o sol visível. Mas essa reforma de maneira nenhuma saiu das profundezas do santuário. Foi Orfeu quem deu nova força ao verbo solar de Apolo, reanimando-o e eletrizando-o por meio dos mistérios de Dionísio. (Ver Fabre d'Olivet, Les vers dorés de Pythagore.)

 

(2). Trakia, segundo Fabre d'Oivet, deriva do fenício Rakhiwa: o espaço etéreo ou o firmamento. O certo é que, para os poetas e os iniciados da Grécia, como Píndaro, Ésquilo ou Platão, o nome Trácia tinha um sentido simbólico e significava: o país da pura doutrina e da poesia sagrada que dele procede. O termo tinha, pois, para eles um sentido filosófico e histórico. Filosoficamente, designava uma região intelectual, o conjunto das doutrinas e das tradições que fazem o mundo proceder de uma inteligência divina. Historicamente, o nome lembrava o país e a raça onde a doutrina e a poesia dóricas, aquele vigoroso rebento do antigo espírito ariano, primeiro haviam brotado, para reflorescer em seguida na Grécia, através do santuário de Apolo.

 

– O uso desse gênero de simbolismo é provado pela história posterior. Em Delfos, havia uma classe de sacerdotes trácios. Eram os guardiões da alta doutrina. O tribunal dos Anfictiões era antigamente defendido por uma guarda trácia, isto é, por uma guarda de guerreiros iniciados. A tirania de Esparta suprimiu essa falange incorruptível e a substituiu pelos mercenários de força bruta. Mais tarde, o verbo traciar foi aplicado ironicamente aos devotos das antigas doutrinas.

 

(3). Estrabão afirma positivamente que a poesia antiga era a língua da alegoria. Dinis de Halicarnasso confirma-o e confessa que os mistérios da natureza e as mais sublimes concepções da moral foram encobertos por um véu. Não é, pois, por metáfora que a antiga poesia se chamou a língua dos Deuses. Esse sentido secreto e mágico, que faz sua força e seu encanto; está contido em seu próprio nome. A maior parte dos lingüistas considera a palavra poesia derivada do verbo grego poíeien, fazer, criar. Etimologia simples e muito natural na aparência, mas um pouco em desacordo com a língua sagrada dos templos, de onde saiu a poesia primitiva. É mais lógico admitir com Fabre d'Olivet que poièsis vem do fenício phohe (boca, voz, linguagem, discurso) e de ish (Ser superior, ser princípio, em sentido figurado: (Deus). O etrusco Aes ou Aesar, o gálico Aes, o escandinavo Ase, o copta Os (Senhor), o egípcio Osíris têm a mesma raiz.

 

(4). O Baco com face de touro se encontra no XXIX hino órfico. É uma lembrança do antigo culto que, de maneira nenhuma, pertence à pura tradição de Orfeu. Este depurou completamente e transfigurou o Baco popular em Dionísio celeste, símbolo do espírito divino que evolui através de todos os reinos da natureza. Coisa curiosa, encontramos o Baco infernal das bacantes no Satã com face de touro, que as bruxas da Idade Média evocavam e adoravam em seus sabás noturnos. É o famoso Bafomé, do qual a Igreja acusou os Templários de serem sectários, para desacreditá-los.

 

(5). Palavra fenícia composta de aur, luz, e de rofae cura.

 
 

 

II

 
O TEMPLO DE JÚPTER
(O Templo de Delfos)

 

Nas proximidades das fontes do Ebro, eleva-se o monte Kaukaión.

 

Espessas florestas de carvalhos servem-lhe de proteção. Coroa-o um círculo de rochedos e de pedras ciclópicas. Há milênios este lugar é uma montanha santa. Os pelasgos, os celtas, os citas e os getos, caçando-se uns aos outros, alternadamente foram ali adorar Deuses diferentes. Mas não é sempre o mesmo Deus que o homem procura quando sobe tão alto? Se não, por que construiria, tão penosamente, uma morada na região dos raios e dos ventos?

 

Um templo de Júpiter eleva-se agora no centro do recinto sagrado, maciço, inabordável como uma fortaleza. À entrada, um peristilo de quatro colunas dóricas destaca seus fustes enormes sobre um pórtico sombrio.

 

No zênite, o céu está sereno; mas a tempestade estruge ainda sobre as montanhas da Trácia, que desdobram ao longe seus vales e seus cumes, negro oceano crispado pela tempestade e sulcado de luz.

 

É a hora do sacrifício. Os sacerdotes de Kaukaión só praticam o sacrifício do fogo. Descem os degraus do templo e acendem a oferenda de madeira aromática como um archote do santuário. No fim, o pontífice sai do templo. Vestido de linho branco como os demais, coroado de mirtas e de cipreste, ele empunha um cetro de ébano com cabeça de marfim e uma cinta de ouro, onde cintilam cristais sombrios, símbolo de uma realeza misteriosa. É Orfeu.

 

Conduz pela mão um discípulo, filho de Delfos, que, pálido, trêmulo e maravilhado, aguarda as palavras do grande Inspirado com o estremecimento dos mistérios. Orfeu compreende isto e, para tranquilizar o místico eleito de seu coração, abraça-o ternamente. Seus olhos sorriem, mas de repente chamejam. E enquanto a seus pés os sacerdotes giram em torno do altar e cantam o hino do fogo, Orfeu, solenemente, diz ao místico bem-amado palavras de iniciação que caem no fundo de seu coração como um licor divino.

 

Eis as aladas palavras de Orfeu ao jovem discípulo:

 

- Recolhe-te bem no fundo de ti mesmo, para te elevares ao Princípio das coisas, à grande Tríade que reluz no Éter imaculado. Consome teu corpo pelo fogo de teu pensamento; desliga-te da matéria como a chama se desliga da madeira que ela devora. Então teu espírito se projetará até o puro éter das Causas eternas, como a águia ao trono de Júpiter.

 

“Vou revelar-te o segredo dos mundos, a alma da natureza, a essência de Deus. Escuta primeiro o grande arcano. Um único ser reina no céu profundo e no abismo da terra, Zeus trovejante, Zeus etéreo. Ele é o conselho profundo, o ódio poderoso e o amor delicioso. Ele reina nas profundezas da terra e nas alturas do céu estrelado: sopro das coisas, fogo indômito, macho e fêmea, um Rei, um Poder, um Deus, um grande Mestre.

 

Júpiter é o esposo e a esposa divina, Homem e Mulher, Pai e Mãe. De seu matrimônio sagrado, de suas núpcias eternas saem incessantemente o Fogo e a Água, a Terra e o Éter, a Noite e o Dia, os Altivos Titãs, os Deuses imutáveis e a flutuante semente dos homens.

 

Os amores do Céu e da Terra não são conhecidos pelos profanos. Os mistérios do Esposo e da Esposa só são revelados aos homens divinos. Mas eu quero declarar a verdade. Ainda há pouco, o trovão abalava estes rochedos; o raio caía como um fogo vivo, uma chama rolante; e os ecos das montanhas bramiam de alegria. Tu, no entanto, tremias, sem saberes de onde vem este fogo nem onde ele bate. É o fogo masculino, semente de Zeus, o fogo criador. Ele sai do coração e do cérebro de Júpiter; move-se em todos os seres. Quando cai o raio, ele brota de sua mão direita. Mas, nós, seus sacerdotes, nós conhecemos sua essência; nós evitamos e algumas vezes dirigimos as suas flechas.

 

E agora, contempla o firmamento, vê o círculo brilhante de constelações, sobre o qual se estende o leve manto da Via Láctea, poeira de sóis e de mundos. Vê flamejar o Orion, cintilar os Gêmeos e resplandecer a Lira. É o corpo da Esposa divina que volteia numa vertigem harmoniosa aos cantos do Esposo. Olha com os olhos do espírito e verás sua cabeça invertida, seus braços estendidos, e levantarás seu véu semeado de estrelas.

 

Júpiter é o Esposo e a Esposa divina. Eis o primeiro mistério.

 

Agora, porém, filho de Delfos, prepara-te para a segunda iniciação. Estremece, chora, goza, adora! Porque teu espírito vai mergulhar na zona ardente onde o grande Demiurgo faz a mistura da alma e do mundo na taça da vida. Bebendo nessa taça inebriante, todos os seres esquecem a divina morada e descem para o doloroso abismo das gerações.

 

Zeus é o grande Demiurgo. Dionísio é seu filho, seu Verbo manifesto. Dionísio, espírito radioso, inteligência viva, resplandecia nas moradas de seu pai, no palácio do Éter imutável. Um dia em que, debruçado, contemplava os abismos do céu através das constelações, viu refletida no azul profundo sua própria imagem que fugia, estendendo-lhe os braços. Apaixonado por esse belo fantasma, enamorado de seu duplo, precipitou-se para tomá-lo nos braços. Mas a imagem fugia, fugia sempre. Afinal, ele se viu num vale sombrio e perfumado, gozando as brisas voluptuosas que acariciavam seu corpo.

 

Numa gruta, percebeu Perséfone. Maia, a bela tecelã, tecia um véu onde se viam ondular as imagens de todos os seres. Diante da virgem divina ele se deteve, mudo de admiração. Nesse momento, os altivos Titãs e as livres Titânidas perceberam-no. Os primeiros, ciumentos de sua beleza, as outras, tomadas de um amor louco, atiraram-se sobre ele como elementos furiosos e o fizeram em pedaços. Depois, tendo distribuído seus membros, colocaram-nos para ferver na água e enterraram seu coração. Júpiter fulminou os Titãs e Minerva transportou para o Éter o coração de Dionísio, que, ali, se transformou num sol ardente. E, da fumaça do corpo de Dionísio, saíram as almas dos homens que sobem para o céu. Quando as pálidas sombras tiverem se reunido ao coração flamejante do Deus, elas se acenderão como chamas, e Dionísio ressuscitará inteiro, mais vivo do que nunca, nas alturas do Empíreo.

 

Eis o mistério da morte de Dionísio. Agora, escuta o da sua ressurreição. Os homens são a carne e o sangue de Dionísio; os homens infelizes são membros esparsos que se buscam, contorcendo-se no crime e no ódio, na dor e no amor, através de milhares de existências. O calor ígneo da Terra, o abismo das forças inferiores os leva sempre em frente para a voragem e os dilacera cada vez mais. Mas, nós, os iniciados, nós que sabemos o que está no alto e o que está embaixo, nós somos os salvadores das almas, os Hermes dos homens. Como amantes, nós os atraímos para nós, assim como nós mesmos somos atraídos pelos Deuses. Assim, por meio de celestes encarnações, reconstituímos o corpo vivo da divindade. Fazemos chorar o céu e rejubilar a terra; e, como jóias preciosas, trazemos em nossos corações as lágrimas de todos os seres para transformá-las em sorrisos. Deus morre em nós. Em nós ele renasce.

 

Assim falou Orfeu. O discípulo de Delfos ajoelhou-se diante do mestre, com os braços erguidos, o gesto dos suplicantes. E o pontífice de Júpiter estendeu a mão sobre sua cabeça, pronunciando estas palavras de consagração:

 

“Que Zeus inefável e Dionísio três vezes revelador, nos infernos, na terra e no céu, sejam propícios à tua juventude e que derramem em teu coração a ciência dos Deuses”.

 

Então, o iniciado, deixando o peristilo do templo, foi lançar o styrax no fogo do altar e invocou três vezes Zeus tonitruante. Os sacerdotes giravam em círculo em torno dele, cantando um hino. O pontífice-rei ficara pensativo sob o pórtico, com o braço apoiado numa estela. O discípulo voltou a ele, dizendo:

 

Melodioso Orfeu , filho amado dos Imortais e doce médico das almas, desde o dia em que te escutei entoar os hinos dos Deuses, na festa de Apolo délfico, arrebataste meu coração e eu te segui por toda a parte. Teus cantos são como um vinho que embriaga, teus ensinamentos, como uma bebida amarga que reergue o corpo abatido e difunde em seus membros uma força nova.

 

E fala Orfeu, que parecia responder mais a vozes interiores do que a seu discípulo:

 

– Áspero é o caminho que daqui de baixo leva aos Deuses. Uma senda florida, uma rampa escarpada e depois rochedos perseguidos pelo raio, cercados pelo espaço imenso – eis o destino do Vidente e do Profeta na Terra. Meu filho, permanece nas veredas floridas da planície e não busques o além.

 

Respondeu-lhe o jovem iniciado:

 

– Minha sede aumenta à medida que a sacias. Tu me tens instruído sobre a essência dos Deuses. Mas, dize-me, grande mestre dos mistérios, inspirado no divino Eros, poderei eu vê-los um dia?

 

Falou o pontífice de Júpiter:

 

- Sim, com os olhos do espírito e não com os do corpo. Ora, tu não sabes enxergar ainda a não ser com estes. É preciso um longo trabalho ou grandes dores para se abrirem os olhos interiores.

 

– Tu somente sabes abri-los, Orfeu! Contigo, o que poderei temer?

 

– Queres? Escuta, então! Na Tessália, no vale encantado de Tempe, ergue-se um templo místico, fechado para os profanos. É lá que Dionísio se manifesta para os místicos e para os videntes. Convido-te para sua festa, que se realizará dentro de um ano. E, mergulhando-te num sono mágico, abrir-te-ei os olhos para o mundo divino. Que até lá tua vida seja casta e branca tua alma. Pois, deves sabê-lo, a luz dos Deuses apavora os fracos e mata os profanadores. Mas, vem à minha morada, que eu te darei o livro necessário para tua preparação.

 

O mestre voltou para o interior do templo com o discípulo délfico e o conduziu até a grande cela que estava reservada para ele. Lá, queimava uma lâmpada egípcia sempre acesa, suspensa por um gênio alado, forjado em metal. Lá, estavam encerrados, nos cofres de cedro odorífero, numerosos rolos de papiro cobertos de hieróglifos e de caracteres fenícios, assim como os livros escritos em idioma grego por Orfeu e que continham sua ciência mágica e sua doutrina sagrada (1).

 

O mestre e o discípulo conversaram na cela durante uma parte da noite.

 

(1). Entre os numerosos livros perdidos que os escritores órficos da Grécia atribuíam a Orfeu havia as Argonáuticas, que tratavam da grande obra hermética; a Demetreida, um poema sobre a mãe dos Deuses, ao qual correspondia uma Cosmogonia, os cantos sagrados de Baco ou Espírito puro, que tinham por complemento uma Teologia; sem falar de outras obras como O véu e a trama das almas, a arte dos mistérios e dos ritos; o livro das mutações, química e alquimia; As coribantes ou os mistérios terrestres e os tremores de terra; a anemoscopia, ciência da atmosfera; uma botânica natural e mágica, etc.
 
 
 



FESTA DIONISÍACA NO VALE DE TEMPE (1)

 

Era na Tessália, no fresco vale de Tempe. A noite santa, consagrada por Orfeu aos mistérios de Dionísio, tinha chegado.

 

Conduzido por um dos servidores do templo, o discípulo de Delfos caminhava por uma estreita e profunda garganta, rodeada de rochedos a pique. Só se ouvia na noite sombria o murmúrio do rio que corria entre suas margens cobertas de relva. Afinal, por trás de uma montanha, mostrou-se a lua cheia. Seu disco amarelo saiu da cabeleira negra dos rochedos. Sua luz sutil e magnética deslizou para as profundezas. E, de repente, o vale encantador apareceu através de uma claridade elísia. Num instante, ele se descobriu inteiro com seus fundos relvados, seus bosques de freixos e de choupos, suas fontes cristalinas, suas grutas ocultas por heras pendentes, e seu rio sinuoso enlaçando ilhas arborizadas ou rolando sob lençóis entrelaçados. Um louro vapor, um sono voluptuoso envolviam as plantas. Suspiros de ninfas pareciam fazer palpitar o espelho das fontes, e tênues sons de flauta escapavam dos caniços imóveis. Sobre todas as coisas pairava o silencioso sortilégio de Diana.

 

O discípulo de Delfos caminhava como em um sonho. Detinha-se, às vezes, para respirar um delicioso odor de madressilva e de loureiro amargo. Mas a claridade mágica durou um instante. A Lua foi coberta por uma nuvem. Tudo se tornou negro; os rochedos retomaram suas formas ameaçadoras; e luzes errantes brilharam de todos os lados sob a espessura das árvores, à margem do rio e nas profundezas do vale.

 

Disse o velho guia do templo:

 

– São os místicos que se põem a caminhar. Cada cortejo tem seu guia carregando um facho. Vamos segui-los.

 

Os viajantes encontravam coros saindo dos bosques e que se punham a caminho. Viram passar primeiro os místicos do jovem Baco, adolescentes vestidos de longas túnicas de linho fino e coroados de hera. Carregavam taças de madeira cinzelada, símbolos da taça da vida.

 

Depois vieram os jovens altivos e vigorosos. Chamavam-se os místicos de Hércules lutador; túnicas curtas, pernas nuas, uma pele de leão atravessando as espáduas e os rins, coroas de oliveira sobre a cabeça.

 

Depois vieram os inspirados, os místicos de Baco dilacerado, a pele listrada da pantera em torno do corpo, pequenas faixas cor púrpura nos cabelos e o tirso na mão.

 

Ao passarem junto de uma caverna, viram prostrados em terra os místicos de Aidoneu e de Eros subterrâneo. Eram homens chorando parentes e amigos mortos, que cantavam em voz baixa: “Aidoneu! Aidoneu! devolve-nos aqueles que nos tomaste ou deixa-nos descer até teu reino”.

 

O vento engolfava-se na caverna e parecia se prolongar sob a terra com os risos e os soluços fúnebres. De repente, um místico voltou-se para o discípulo de Delfos e lhe disse:

 

– Tu atravessaste o limiar de Aidoneu e não verás mais a luz dos vivos.

 

Um outro roçou por ele ao passar e segredou-lhe no ouvido estas palavras:

 

– Sombra, tu serás a presa da sombra! Tu que vens da Noite, retorna ao Erebo!

 

E fugiu, correndo.

 

O discípulo de Delfos ficou gelado de pavor e cochichou para seu guia: “O que quer isto dizer?

 

O servidor do templo pareceu não ter ouvido nada e disse somente:

 

– É preciso passar a ponte. Ninguém evita o fim.

 

Atravessaram uma ponte de madeira sobre o Peneu e o neófito perguntou:

 

– De onde vêm estas vozes soluçantes e esta melopéia triste?

 

Quem são estas sombras brancas que caminham em longas filas sob os choupos?

 

– São mulheres que vão se iniciar nos mistérios de Dionísio.

 

– Sabes os seus nomes?

 

– Aqui ninguém sabe o nome de ninguém e cada um esquece o seu, pois, assim como na entrada do recinto sagrado os místicos deixam suas vestes sujas para se banharem no rio e depois vestirem roupas de puro linho, assim também cada um deixa seu nome para tomar outro.

 

Durante sete dias e sete noites, passam por uma transformação e para outra vida. Olha toda essa procissão de mulheres. Elas não estão agrupadas segundo suas famílias e suas pátrias, mas de acordo com os Deuses que as inspiram.

 

Viram desfilar jovens coroadas de narcisos, com túnicas azuladas, as quais; o guia chamava as ninfas companheiras de Perséfone. Elas traziam, castamente enlaçados em seus braços, cofres, urnas, vasos votivos. Depois vinham, em túnicas vermelhas, as amantes místicas, as esposas ardentes, as adoradoras de Afrodite. Penetraram num bosque escuro, de onde vinha o som de apelos violentos misturados a lânguidos soluços, que se acalmaram pouco a pouco. Depois, um coro apaixonado elevou-se do sombrio bosque de mirtas, e subiu aos céus em lentas palpitações: “Eros, tu nos feriste! Afrodite, tu quebraste os nossos membros! Cobrimos nosso seio com a pele do filhote de cervo, mas trazemos no peito a púrpura sangrenta de nossas feridas. Nosso coração é um braseiro devorador. Outras morrem de pobreza; mas é o amor que nos consome. Devora-nos, Eros! Eros! Ou liberta-nos, Dionísio! Dionísio!”

 

Outra procissão avançou. Estas mulheres estavam completamente vestidas de lã negra, com longos véus arrastando no chão, e todas estavam desoladas por algum grande luto. O guia as chamou de as desoladas de Perséfone. Neste local existia um grande mausoléu de mármore recoberto de hera.

 

Elas se ajoelharam em volta, desataram seus cabelos e soltaram altos gritos. À estrofe do desejo elas responderam com a estrofe da dor, clamando: “Perséfone, tu estás morta, arrebatada por Aidoneu; desceste ao império dos mortos. Mas, nós, que choramos o bem-amado, nós somos como que mortas-vivas. Que o dia não renasça. Que a terra que te cobre, oh! grande deusa, nos dê o sono eterno, e que nossa sombra erre enlaçada à sombra querida! Atende-nos, Perséfone! Perséfone!”

 

Diante dessas cenas estranhas, sob o delírio contagioso dessas dores profundas, o discípulo de Delfos sentiu-se invadido por mil sensações contraditórias e torturantes. Não era mais ele mesmo; os desejos, os pensamentos, as agonias de todos aqueles seres tinham-se tornado seus desejos e suas agonias. Sua alma se fragmentava para passar por mil corpos. Uma angústia mortal o penetrava. Não sabia mais se era homem ou sombra.

 

Então, um iniciado de elevada estatura, que passava por lá, deteve-se e disse: “Paz às sombras atormentadas! Mulheres sofredoras, aspirai à luz de Dionísio. Orfeu vos espera!” Todas o cercaram em silêncio, desfolhando diante dele suas coroas de asfódelos. E, com o seu tirso, ele mostrou-lhes o caminho. As mulheres foram beber numa fonte, em taças de madeira. As procissões se reorganizaram e o cortejo prosseguiu. As jovens iam à frente entoando um canto fúnebre com este refrão: “Agitai as papoulas! Bebei a água do Lete! Dai-nos a flor desejada; e que para nossas irmãs o narciso refloresça! Perséfone! Perséfone!

 

O discípulo caminhou muito tempo ainda com o guia. Atravessou campinas onde crescia o asfódelo; andou sob a sombra dos choupos que murmuravam tristemente. Ouviu cantos lúgubres que deslizavam no ar e que ele não sabia de onde vinham. Viu, suspensas nas árvores, máscaras horríveis e figuras de cera como se fossem crianças enfaixadas. Aqui e lá, barcas atravessavam o rio, com pessoas silenciosas como se estivessem mortas. Afinal, alargou-se o vale, o céu tornou-se claro no alto das montanhas e a aurora surgiu. Ao longe, percebiam-se as gargantas sombrias do Ossa, sulcadas por abismos, onde se amontoam rochas desmoronadas. Mais perto, no meio de um círculo de montanhas, brilhava numa colina arborizada o templo de Dionísio.

 

Já o sol dourava os altos cumes. À medida que se aproximavam do templo, eles viram chegar de todas as partes cortejos de místicos, procissões de mulheres, grupos de iniciados. Esta multidão, grave na aparência, mas interiormente agitada por uma expectativa tumultuosa, se encontrou ao pé da colina e iniciou o acesso ao santuário. Todos se saudavam como amigos, agitando os ramos e os tirsos. O guia desaparecera. E o discípulo de Delfos se viu, não soube como, em um grupo de iniciados de cabelos brilhantes, entrelaçados de coroas e de faixas de diversas cores. Ele jamais os vira e, no entanto, sentia reconhecê-los por uma lembrança cheia de felicidade. Eles também pareciam esperá-lo, pois saudavam-no como a um irmão e o felicitavam por sua feliz chegada. Arrastado por seu grupo e como que transportado por asas, ele subiu até os mais altos degraus do templo, quando um raio de luz ofuscou-o. Era o sol levante que lançava sua primeira claridade no vale e inundava com seus raios brilhantes aquele povo de místicos e iniciados reunidos na escadaria do templo e em toda a colina. Logo um coro entoou o peã, hino em honra de Apolo. As portas do templo se abriram sozinhas e, seguido por Hermes e pelo portador da tocha, apareceu o profeta, o hierofante, Orfeu. O discípulo de Delfos reconheceu-o com um estremecimento de alegria. Vestido de púrpura, sua lira de marfim e ouro à mão, Orfeu irradiava uma juventude eterna.

 

Ele disse:

 

- Saúdo a vós todos que viestes para renascer depois dos sofrimentos da terra, e que renasceis neste momento. Vinde beber a luz do templo, vós que saís da noite, místicos, mulheres, iniciados. Vinde regozijar-vos, vós que sofrestes; vinde repousar, vós que haveis lutado.

 

O sol que eu evoco sobre vossas cabeças, e que vai brilhar em vossas almas, não é o sol dos mortais; é a pura luz de Dionísio, o grande sol dos iniciados. Por vossos sofrimentos passados, pelo esforço que vos conduz, vós vencereis, e se acreditais nas palavras divinas já sois vencedores. Depois do longo circuito das existências tenebrosas, saireis, enfim, do círculo doloroso das gerações, e todos vós vos vereis como um só corpo, como uma só alma na luz de Dionísio.

 

“A centelha divina que nos guia na Terra está em nós! Torna-se chama do templo, estrela do céu. Assim cresce a luz da verdade! Escutai vibrar a Lira de sete cordas, a Lira do Deus... Ela move os mundos. Escutai bem! Que esse som vos atravesse... e as profundezas dos céus se abrirão!

Socorro dos fracos, consolo dos sofredores, esperança de todos!

Mas desgraça dos maus, dos profanos! Eles serão confundidos. Porque no êxtase dos Mistérios, cada um vê até o fundo da alma do outro. Ali os maus são feridos pelo terror, os profanos pela morte.

E agora que Dionísio luziu sobre vós, eu invoco o Eros celeste e todo-poderoso. Que ele esteja convosco nos amores, nas aflições e nas alegrias. Amai, porque tudo ama, os Demônios do abismo e os Deuses do Éter. Amai, porém, a luz e não as trevas. Lembrai-vos do fim durante a viagem. Quando as almas voltam para a luz, elas trazem, como manchas horrendas sobre o seu corpo sideral, todas as faltas de sua vida... E, para apagá-las, é preciso que elas expiem e que retornem à terra. . . Mas os puros, os fortes vão para o sol de Dionísio.”

 

“E, agora, entoai o Evoé!”

 

Evoé! – gritaram os arautos aos quatro cantos do templo. Evoé!

 

– os címbalos retiniram. Evoé! – respondeu a assembléia entusiasmada, agrupada nos degraus do santuário. E o grito de Dionísio, o apelo sagrado ao renascimento, à vida, reboou no vale, repetido por mil peitos, enviado ao longe por todos os ecos das montanhas. E os pastores das gargantas selvagens do Ossa, com seus rebanhos pelas florestas, sentiram-se suspensos às nuvens e responderam: Evoé (2)

 

 

(1). Pausânias conta que, todos os anos, uma teoria seguia de Delfos para o vale de Tempe, para ali colher o loureiro sagrado. Este costume significativo lembrava aos discípulos de Apolo que eles estavam ligados à iniciação órfica e que a primeira inspiração de Orfeu era o tronco antigo e vigoroso, do qual o templo de Delfos sempre colhia os ramos amarelos e vivos.

Esta fusão entre a tradição apolínea e a tradição órfica indica-se ainda de outra maneira, na história dos templos. Efetivamente, a célebre disputa entre Apolo e Baco pelo tripé do templo não tem outro sentido. Baco, diz a lenda, cedeu o tripé ao irmão e se retirou para o Parnaso. Isto quer dizer que Dionísio e a iniciação órfica ficaram sendo o privilégio dos iniciados, enquanto que Apolo fazia seus oráculos para o mundo exterior.

 

(2). O grito Evoé, que se pronuncia na realidade: Hê, Vo, Hé, era o grito sagrado de todos os iniciados do Egito, da Judéia, da Fenícia, da Ásia Menor e reservou as ciências que correspondem à sílaba Jod (Iove, Zeus, Júpiter) e a idéia da unidade de Deus para os iniciados do primeiro grau, buscando mesmo com isso interessar o povo pela poesia, pelas artes e seus símbolos vivos. Por isto o grito Evoé era abertamente proclamado nas festas de Dionísio, onde se admitiam, além dos iniciados, os simples aspirantes aos mistérios.

Nisso consistia toda a diferença entre a obra de Moisés e a de Orfeu.

Todos os dois partem da iniciação egípcia e possuem a mesma verdade, mas aplicam-se em sentido oposto. Moisés, asperamente, ciumentamente, glorifica o Pai, o Deus masculino. Confia sua guarda a um sacerdócio fechado e submete o povo a uma disciplina implacável, sem revelação. Orfeu, divinamente apaixonado pelo Eterno-Feminino, pela Natureza, glorifica-a em nome de Deus, que a penetra e que ele quer fazer brotar na humanidade divina. Eis por que o grito Evoé tornou-se o grito sagrado por excelência em todos os mistérios da Grécia.

 

 

 

IV

 
EVOCAÇÃO

 

A festa findara como um sonho: anoitecera. As danças, os cantos e as preces tinham desaparecido numa bruma rósea. Orfeu e seu discípulo desceram por uma galeria subterrânea para a cripta sagrada, que se prolongava no coração da montanha e à qual somente o hierofante tinha acesso. Lá o inspirado dos Deuses se entregava a suas meditações solitárias ou prosseguia, com seus adeptos, as elevadas obras da magia e da teurgia.

 

Ao seu redor, estendia-se um espaço imenso e cavernoso. Dois archotes fixados no chão vagamente iluminavam as muralhas fendidas e as profundezas tenebrosas. A alguns passos, uma fenda negra se escancarava no solo; um vapor quente saía dali, e este abismo parecia descer às entranhas da terra. Um pequeno altar onde queimava um fogo de loureiro seco e uma esfinge de pórfíro vigiavam suas bordas. Mais distante, a uma altura incomensurável, a caverna recebia a claridade do céu estrelado por uma fenda oblíqua. Esse pálido raio de luz azulada parecia o olho do firmamento mergulhando naquele abismo.

 

Então, Orfeu disse ao discípulo:

 

– “Tu bebeste nas fontes da luz santa. Entraste como o coração puro no seio dos mistérios. Chegou a hora solene de fazer-te penetrar nas fontes da vida e da luz. Aqueles que não ergueram o véu espesso que encobre aos olhos dos homens as maravilhas invisíveis, não se tornam filhos dos Deuses.”

 

Escuta, pois, as verdades que é preciso calar à multidão e que fazem a força dos santuários:

 

Deus é uno e sempre semelhante a Ele mesmo. Ele reina em toda a parte. Mas os Deuses são inúmeros e diversos, porque a divindade é eterna e infinita. Os maiores são as almas dos astros. Sóis, Estrelas, Terras e Luas, cada astro tem o seu, e todos são resultantes do fogo celeste de Zeus e da luz primitiva. Semiconscientes, inacessíveis, imutáveis, eles regem o grande conjunto de seus movimentos regulares.

 

Ora, cada astro que gira arrasta, em sua esfera etérea, falanges de semideuses ou almas resplandecentes, que outrora foram homens, e que, após terem descido a escala dos reinos, gloriosamente tornaram a subir os ciclos, para saírem, finalmente, do círculo das gerações. É por meio desses divinos espíritos que Deus respira, age, aparece. Que digo eu?

 

Eles são o sopro de sua alma viva, os raios de sua consciência eterna. Comandam os exércitos dos espíritos inferiores que atuam nos elementos. Dirigem os mundos. De longe, de perto, eles nos cercam e, embora de essência imortal, revestem-se de formas sempre variáveis, conforme os povos, os tempos e as regiões. O ímpio que os nega, teme-os.

 

O homem piedoso adora-os sem conhecê-los. O iniciado os conhece, atrai e vê. Se lutei para encontrá-los, se desafiei a morte, se, como se diz, desci aos infernos, foi para dominar os demônios do abismo, para chamar os Deuses do alto sobre a minha Grécia amada, para que o Céu profundo se case com a Terra e que a Terra encantada escute as vozes divinas. A beleza celeste se encarnará no corpo das mulheres, o fogo de Zeus circulará no sangue dos heróis. E muito antes de subirem aos astros, os filhos dos Deuses resplandecerão como os Imortais.

 

Sabes o que é a Lira de Orfeu? O som dos templos inspirados.

 

Tem os Deuses como cordas. À sua música, a Grécia se afinará como uma lira e o próprio mármore cantará em cadências brilhantes, em celestes harmonias.

 

“Agora evocarei meus Deuses, para que eles te apareçam vivos e te mostrem, numa visão profética, o místico himeneu que preparo para o mundo e que os iniciados verão.”

 

“Deita-te ao abrigo desta rocha. Nada temas. Um sono mágico fechará tuas pálpebras. Tremerás no início e verás coisas terríveis. Mas, em seguida, uma luz deliciosa, uma felicidade desconhecida inundará teus sentidos e todo o teu ser”.

 

O discípulo já se encolhera no nicho cavado em forma de leito na rocha. Orfeu pôs algumas gotas de perfume no fogo do altar. Depois, tomou seu cetro de ébano, cuja cabeça era de cristal flamejante, colocou-se junto da esfinge e, clamando com uma voz profunda, começou a invocação:

 

Cibele! Cibele! Grande mãe, ouve-me! Luz original, chama ágil, etérea e sempre saltitante através dos espaços, que encerras os ecos e as imagens de todas as coisas! Invoco os teus corcéis fulgurantes de luz. Oh! alma universal, criadora dos abismos, semeadora de sóis, que arrastas pelo Éter teu manto estrelado! Luz sutil, oculta, invisível aos olhos da carne! Grande mãe dos Mundos e dos Deuses, tu, que encerras os tipos eternos! Antiga Cibele, a mim! a mim! Por meu cetro mágico, por meu pacto com as Potências, pela alma de Eurídice!. . . Eu te evoco, Esposa multiforme, dócil e vibrante sob o fogo do Macho eterno. Do mais alto dos espaços, do mais profundo dos abismos, de todas as partes vem, aflui, enche esta caverna com teus eflúvios. Cerca o filho dos Mistérios com uma muralha de diamante e faz que ele veja em teu seio profundo os Espíritos do Abismo, da Terra e dos Céus."

 

A estas palavras, um trovão subterrâneo abalou as profundezas do abismo e toda a montanha tremeu. Um suor frio gelou o corpo do discípulo. Ele via Orfeu através de uma fumaça que aumentava. Por um instante tentou lutar contra a força terrível que o abatia. Mas seu cérebro ficou submerso, sua vontade anulada. Sentiu as angústias de um afogado que tem os pulmões entupidos de água e cuja horrível convulsão termina nas trevas da inconsciência.

 

Quando recuperou a consciência, a noite reinava ao seu redor; uma noite atravessada por uma semiclaridade rasteira, amarelada, lodosa. Olhou por muito tempo sem nada ver. De quando em quando, sentia sua pele roçada como que por morcegos invisíveis. Afinal, vagamente, pareceu-lhe ver mexerem-se nas trevas formas monstruosas de centauros, hidras e górgonas. Mas a primeira coisa que percebeu, distintamente, foi uma grande figura de mulher, sentada num trono. Ela estava envolta num longo véu de pregas fúnebres, semeado de estrelas pálidas, e trazia uma coroa de papoulas. Seus grandes olhos, abertos, velavam imóveis. Massas de sombras humanas moviam-se à sua volta, como pássaros cansados, e segredavam à meia-voz:

 

– “Rainha dos mortos, alma da terra. Perséfone! Nós somos filhas do céu. Por que estamos exiladas no sombrio reino? Oh! ceifeira do céu, por que colheste nossas almas, que outrora voavam felizes na luz, entre suas irmãs, nos campos do Éter?”

 

Perséfone respondeu:

 

– “Eu colhi o narciso, entrei no leito nupcial. Bebi a morte com a vida. Como vós, eu também gemi nas trevas”.

 

Gemendo, perguntaram as almas:

 

- “Quando seremos libertadas?”

 

- “Quando vier o meu esposo celeste, o divino libertador!”

 

Então apareceram mulheres terríveis. Seus olhos estavam injetados de sangue e suas cabeças coroadas de plantas venenosas. Em torno dos braços, dos flancos seminus torciam-se serpentes que elas manejavam como chicotes: “Almas, espectros, larvas! – diziam elas com sua voz sibilante – não acrediteis na insensata rainha dos mortos.

 

Nós somos as sacerdotisas da vida tenebrosa, servas dos elementos e dos monstros cá de baixo, bacantes da terra, Fúrias no Tártaro. Nós somos vossas rainhas eternas, oh! almas infortunadas. Não saireis do círculo maldito das gerações, pois a ele vos faremos voltar com nossos chicotes. Torcei-vos para sempre entre os anéis sibilantes de nossas serpentes, nos laços do desejo, do ódio e do remorso” E, desgrenhadas, elas se precipitaram sobre o rebanho das almas desvairadas, que se puseram a rodopiar nos ares como um turbilhão de folhas secas, sob os golpes do chicote, soltando altos gemidos.

 

Diante desta visão, Perséfone empalideceu. Não parecia mais do que um fantasma lunar. Ela murmurou: “Oh, céu... A luz... os Deuses... Um sonho!. . Sono, sono eterno!”

Sua coroa de papoulas murchou; seus olhos se fecharam de angústia. A rainha dos mortos caiu em letargia no trono... e depois tudo desapareceu nas trevas.

 

A visão mudou. O discípulo de Delfos se viu num vale esplêndido e verdejante com o monte Olimpo ao fundo. Diante de um antro negro, adormecia sobre um leito de flores a bela Perséfone. Uma coroa de narcisos substituía, em seus cabelos, a coroa de papoulas fúnebres e a aurora de uma vida que renascia derramava em suas faces um colorido ambrosiano. Suas tranças escuras caíam sobre as espáduas de magnífica brancura, e as rosas de seu seio, docemente agitado, pareciam chamar os beijos dos ventos. Ninfas dançavam numa campina. Pequenas nuvens brancas viajavam no firmamento. Uma lira ressoava num templo...

 

Em sua voz de ouro, em seus ritmos sagrados, o discípulo ouviu a música íntima das coisas. Pois das folhas, das ondas, das cavernas saía uma melodia incorpórea e terna. E as vozes longínquas das mulheres iniciadas, que guiavam seus coros nas montanhas, chegavam a seus ouvidos em cadências partidas. Umas, desvairadas, apelavam para Deus; outras acreditavam percebê-lo, caindo na borda das florestas meio mortas de fadiga.

 

Finalmente, o firmamento se abriu no zênite, para gerar de seu seio uma nuvem brilhante. Como um pássaro que paira um instante e depois se precipita sobre a terra, o Deus que sustenta o tirso desceu e veio pousar diante de Perséfone. Ele era radioso, com os cabelos desfeitos. E em seus olhos rolava o delírio sagrado dos mundos por nascer. Por muito tempo ele a cobriu com o olhar, depois estendeu seu tirso sobre ela. O tirso roçou-lhe o seio, e ela se pôs a sorrir. Ele tocou-lhe a fronte, ela abriu os olhos, ergueu-se lentamente e contemplou seu esposo. Aqueles olhos, ainda cheios do sono do Erebo, começaram brilhar como duas estrelas. E o Deus perguntou:

 

– Reconheces-me?

 

Exclamou Perséfone:

 

Oh! Dionísio, Espírito divino, Verbo de Júpiter, Luz celeste que resplandece sob a forma de homem! Cada vez que tu me despertas, acredito viver pela primeira vez; os mundos renascem em minha lembrança; o passado, o futuro tornam-se o imortal presente; e eu sinto em meu coração irradiar o Universo!

 

Ao mesmo tempo, acima das montanhas, numa orla de nuvens prateadas, apareceram os Deuses curiosos, inclinados na direção da terra.

 

Embaixo, grupos de homens, de mulheres e de crianças, que saíram dos pequenos vales e das cavernas contemplavam os Imortais num arrebatamento celeste. Hinos ardentes subiam dos templos com as ondas de incenso. Entre a Terra e o Céu, preparava-se um daqueles matrimônios que fazem as mães conceberem heróis e Deuses. Já um colorido rosa tinha-se derramado sobre toda a paisagem. Já a rainha dos mortos, voltando a ser a divina ceifadora, subia rumo aos céus, transportada pelos braços do esposo. Uma nuvem púrpura os envolveu e os lábios de Dionísio pousaram na boca de Perséfone. . .

 

Então, um imenso grito de amor partiu do Céu e da Terra, como se o arrepio sagrado dos Deuses, passando sobre a grande lira, quisesse dilacerar todas as cordas e debulhar os sons a todos os ventos. Ao mesmo tempo, emanou do par divino uma fulguração, um furacão de luz estonteante...

 

E tudo desapareceu.

 

Por um momento, o discípulo de Orfeu sentiu-se como que tragado pela fonte de todas as vidas, submerso no sol do Ser. E, mergulhando em seu braseiro incandescente, dele irrompeu com suas asas celestes. Como um relâmpago, atravessou os mundos, para atingir em seus limites o sono estático do Infinito.

 

Quando recobrou seus sentidos corporais, estava mergulhado na noite escura. Somente uma lira luminosa brilhava nas trevas profundas.

 

Ela fugia, fugia e se transformou numa estrela. Só então o discípulo percebeu que estava na cripta das evocações e que aquele ponto luminoso era a fenda distante da caverna aberta para o firmamento.

 

Uma grande sombra se mantinha de pé junto dele. Reconheceu Orfeu, por seus longos cachos e pelo cristal flamejante de seu cetro.

 

Perguntou-lhe o hierofante:

 

- Filho de Delfos, de onde vens?

 

- Mestre dos iniciados, celeste encantador, maravilhoso Orfeu, tive um sonho divino. Seria isto um encanto da magia, um dom dos Deuses? O que aconteceu? Transformou-se o mundo? Onde estou agora?

 

- Conquistaste a coroa da iniciação e viveste o meu sonho: a Grécia imortal! Mas devemos sair daqui. Para que tudo se cumpra, é preciso que eu morra e que tu vivas.

 

 

 

V

 
A MORTE DE ORFEU

 

As florestas de carvalhos rugiam chicoteadas pela tempestade, nos flancos do monte Kaukaión. Os raios ribombavam em golpes redobrados sobre as rochas nuas e faziam tremer em suas bases o templo de Júpiter. Os sacerdotes de Zeus estavam reunidos numa cripta abobadada do santuário. Em seus assentos de bronze, formavam semicírculo. Orfeu conservava-se de pé no meio deles, como um acusado. Estava mais pálido do que de costume, mas uma chama profunda emanava de seus olhos calmos.

 

O mais velho dos sacerdotes elevou a voz grave como a de um juiz:

 

– Orfeu, tu, que dizem ser filho de Apolo, a quem nomeamos pontífice e rei, entregando o cetro místico dos filhos de Deus, reinas sobre a Trácia por meio da arte sacerdotal e real. Reergueste neste país os templos de Júpiter e de Apolo, e fizeste reluzir na noite os mistérios, o sol divino de Dionísio. Mas, por acaso sabes o que nos ameaça? Tu, que conheces os segredos terríveis; tu, que mais de uma vez nos predisseste o futuro e que, de longe, falaste a teus discípulos, aparecendo-lhes em sonho, tu ignoras o que se passa ao redor de ti. Em tua ausência, as Bacantes selvagens, as sacerdotisas malditas reuniram-se no vale de Hécate. Conduzidas por Aglaonice, a mágica de Tessália, persuadiram os chefes das margens do Ebro a restabelecerem o culto da sombria Hécate e ameaçam destruir os templos dos Deuses masculinos e todos os altares do Altíssimo. Excitados por suas bocas ardentes, guiados por suas tochas incendiárias, mil guerreiros trácios estão acampados ao pé daquela montanha, e amanhã assaltarão o templo, instigados pelo sopro das mulheres vestidas com peles de panteras, ávidas do sangue dos machos. Aglaonice, a grande sacerdotisa da Hécate tenebrosa, os conduz; é a mais terrível das mágicas, implacável e obstinada como uma Fúria. Deves conhecê-la! O que dizes?

 

Falou Orfeu:

 

- Eu já sabia de tudo, e tudo devia acontecer.

 

- Então, por que nada fizeste para nos defender? Aglaonice jurou degolar-nos sobre nossos altares, diante do Céu vivo, que adoramos.

 

Mas, o que acontecerá com este templo, seus tesouros, tua ciência e o próprio Zeus, se tu o abandonas?

 

Orfeu replicou com doçura:

 

- Não estou convosco?

 

O ancião respondeu:

 

– Vieste, mas muito tarde. Aglaonice conduz as Bacantes e as Bacantes conduzem os trácios. Tu os repelirás com o raio de Júpiter e com as flechas de Apolo? Por que não convocaste neste recinto os chefes trácios, fiéis a Zeus, para esmagarem a revolta?

 

– Não com armas, mas com a palavra é que se defendem os Deuses. Não são os chefes que devem ser abatidos, mas as Bacantes. Eu irei. Sozinho. Ficai tranqüilos. Nenhum profano transporá este recinto.

 

Amanhã terminará o reinado das sacerdotisas sangüinárias. E sabei-o bem, vós que tremeis diante da horda de Hécate, os Deuses celestes e solares vencerão. A ti, ancião, que duvidavas de mim, deixo-te o cetro do pontífice e a coroa de hierofante.

 

O velho, apavorado, perguntou:

 

- O que vais fazer?

- Vou reunir-me aos Deuses... A vós todos, adeus!

 

Orfeu saiu, deixando os sacerdotes mudos em seus assentos. No templo, encontrou o discípulo de Delfos e, tomando-lhe a mão com energia, falou:

 

- Vou ao campo dos trácios. Segue-me.

 

Eles marchavam sob os carvalhos. A tempestade estava longe.

 

Entre as ramagens espessas, brilhavam as estrelas.

 

Orfeu falava:

 

- Chegou para mim a hora suprema. Outros me compreenderam, mas tu, tu me amaste! Eros é o mais antigo dos Deuses, dizem os iniciados; ele tem a chave de todos os seres. Também eu te fiz penetrar no fundo dos Mistérios. . . Os Deuses falaram contigo, tu os viste!...

Agora, longe dos homens, sozinho consigo mesmo, na hora de sua morte, Orfeu deve deixar ao discípulo amado a palavra de seu destino, a imortal herança, a pura chama de sua alma.

 

O discípulo de Delfos disse:

 

– Mestre, eu te escuto e te obedeço!

 

- Continuemos a caminhar por esta vereda que desce. O tempo urge. Quero surpreender meus inimigos. Enquanto me segues, escuta e grava minhas palavras em tua memória, mas conserva-as como um segredo.

 

– Elas se imprimem com letras de fogo em meu coração. Os séculos jamais as apagarão.

 

– Sabes, agora, que a alma é filha do céu. Contemplaste tua origem e teu fim e começas a te recordares. Quando ela desce na carne, continua, embora, fracamente, a receber o influxo do alto. E é através de nossas mães que esse sopro poderoso chega até nós. O leite de seu seio nutre nosso corpo. Mas é de sua alma que se nutre nosso ser angustiado pela sufocante prisão do corpo. Minha mãe era sacerdotisa de Apolo, minhas primeiras lembranças são as de um bosque sagrado, de um templo solene, de uma mulher carregando-me em seus braços, envolvendo-me com a suave cabeleira como uma cálida roupa. Os objetos terrestres, as fisionomias humanas me invadiram com um terror medonho. Mas logo minha mãe me apertava nos braços e eu encontrava seu olhar, que me inundava de uma divina lembrança do Céu. Porém, esse raio de luz morreu no cinzento sombrio da Terra. Um dia, minha mãe desapareceu. Morrera. Privado de seu olhar, de suas carícias, fiquei assustado com minha solidão. Tendo visto correr o sangue de um sacrifício, fui acometido de horror pelo templo e desci para os vales tenebrosos.

 

“As Bacantes abalaram minha juventude. Desde então, Aglaonice reinava sobre aquelas mulheres voluptuosas e ferozes. Homens e mulheres, todo o mundo a temia. Essa Tessaliana exercia sobre todos os que dela se aproximavam uma atração fatal. Por meio das artes da infernal Hécate, ela atraía as jovens para o seu vale mal-assombrado e as instruía em seu culto. Todavia, ela vira Eurídice e ficara apaixonada por essa virgem com um desejo perverso, um amor desenfreado, maléfico. Ela queria arrebatar a jovem para o culto das Bacantes, dominá-la, entregá-la aos gênios infernais, depois de ter fenecido sua juventude. Ela já a tinha envolvido com suas promessas sedutoras, com seus sortilégios noturnos.”

 

“Eu mesmo, atraído por um pressentimento desconhecido para o vale de Hécate, caminhava um dia entre os arbustos de uma campina cheia de plantas venenosas. Mas, de todos os lados reinava o horror dos bosques sombrios frequentados pelas Bacantes. Perfumes exalavam ali por baforadas, como o quente hálito do desejo. Foi então que vi Eurídice. Ela caminhava lentamente, sem me ver, na direção de um antro, como que fascinada por um alvo invisível, Às vezes, um riso ligeiro saía do bosque das Bacantes, às vezes, um suspiro estranho.

 

Eurídice detinha-se trêmula, indecisa, e depois recomeçava sua caminhada, como que atraída por um poder mágico. Seus cachos de ouro tremulavam sobre as espáduas alvas, seus olhos de narciso nadavam na embriaguez, enquanto ela caminhava para a boca do inferno. Mas eu tinha visto o céu adormecido em seu olhar. −Eurídice!

 

− gritei, tomando-lhe a mão. − Aonde vais? − Como que despertada de um sonho, ela soltou um grito de horror e de libertação, depois caiu sobre meu peito. Foi neste momento que o divino Eros nos dominou e, por um olhar, Eurídice-Orfeu foram esposos para sempre.”

 

“Então, Eurídice, que me tinha enlaçado em seu desespero, mostrou-me a gruta com um gesto de pavor. Dela me aproximei e ali vi uma mulher sentada. Era Aglaonice. Junto dela, uma pequena estátua de Hécate em cera, pintada de vermelho, branco e preto, segurando um chicote. Ela murmurava palavras encantadas, fazendo girar a rodinha mágica, e seus olhos, fixos no vazio, pareciam devorar a presa. Eu quebrei a rodinha, esmigalhei a estátua de Hécate a meus pés e, ferindo a mágica com o olhar, gritei:

 

– Por Júpiter, proíbo-te de pensares em Eurídice, sob pena de morte! Pois fica sabendo, os filhos de Apolo não têm medo de ti.

 

Aglaonice, aturdida, retorceu-se como uma serpente ante meu gesto, e desapareceu em sua caverna lançando-me um olhar de ódio mortal.

 

Levei Eurídice para as proximidades de meu templo. As virgens do Ebro, coroadas de jacinto, cantaram ao redor de nós: Himeneu! Himeneu! E conheci a felicidade.

 

A Lua só mudara três vezes quando uma Bacante, compelida pela Tessaliana, apresentou a Eurídice uma taça de vinho que lhe daria, dizia ela, a ciência dos filtros e das ervas mágicas. Eurídice, curiosa, bebeu-a e caiu fulminada. A taça continha um veneno mortal!

“Quando vi a pira consumir Eurídice; quando vi o túmulo tragar suas cinzas; quando a última lembrança de sua forma viva desapareceu, gritei: “Onde está sua alma?” Parti desesperado. Errei por toda a Grécia.

 

Supliquei sua evocação aos sacerdotes da Samotrácia. Busquei-a nas entranhas da terra, no cabo Tênaro. Mas foi tudo em vão. Finalmente, cheguei ao antro de Trofônio. Lá, alguns sacerdotes conduzem os visitantes temerários por uma fenda, até os lagos de fogo que borbulham no interior da Terra, e os fazem ver o que lá se passa. No caminho, sempre andando, entra-se em êxtase, e a segunda visão se apresenta.

 

Mal se respira, a voz sai estrangulada e só se pode falar por meio de sinais. Uns recuam no meio do caminho, outros persistem e morrem sufocados; a maioria dos que saem vivos ficam loucos. Depois de ter visto o que nenhuma boca deve repetir, regressei à gruta e caí numa profunda letargia. Durante aquele sono de morte, apareceu-me Eurídice.

 

Ela flutuava em um nimbo, pálida como um raio de luz lunar, e me disse:Por mim enfrentaste o inferno e me procuraste entre os mortos.

 

Eis-me aqui, atendo a teu apelo. Eu não habito o seio da Terra, mas a região de Erebo, o cone de sombra entre a Terra e a Lua. Eu turbilhono neste limbo chorando como tu. Se queres me libertar, salva a Grécia, dando-lhe a luz. Então eu, reencontrando minhas asas, subirei para os astros, e tu me verás na luz dos Deuses. Até lá, é preciso que eu fique vagando na esfera confusa e dolorosa. . .” Três vezes quis abraçá-la; três vezes ela dissipou-se em meus braços, como sombra. Ouvi apenas uma espécie de som de uma corda que se dilacera. Depois, uma voz fraca como um sopro, triste como um beijo de adeus, murmurou: Orfeu!...

 

Aquela voz me despertou. Este nome pronunciado por uma alma transformara meu ser. Senti passar por mim o estremecimento sagrado de um imenso desejo e o poder de um amor sobre-humano. Eurídice, viva, proporcionou-me a embriaguez da felicidade. Eurídice, morta, me fez encontrar a Verdade. Foi por amor que me cobri com este hábito de linho, devotando-me à grande iniciação e à vida ascética; foi por amor que penetrei na magia e busquei a ciência divina; foi por amor que atravessei as cavernas da Samotrácia, os poços das Pirâmides e as tumbas do Egito. Eu rebusquei a morte para ali encontrar a vida. E, para além da vida, vi os limbos, as almas, as esferas transparentes, o Éter dos Deuses. A terra me abriu seus abismos, o céu, seus templos reluzentes.

 

Os sacerdotes de Ísis e de Osíris revelaram-me seus segredos. Eles só possuíam aqueles Deuses; eu tinha Eros! Por ele falei, cantei, venci. Por ele soletrei o verbo de Hermes e o verbo de Zoroastro; por ele pronunciei o verbo de Júpiter e o de Apolo!

 

“Mas chegou a hora de confirmar pela morte a minha missão. É preciso que eu desça ainda uma vez aos infernos, para subir de novo aos céus. Escuta, filho querido de minha palavra: levarás minha doutrina ao templo de Delfos e minha lei ao tribunal dos Anfictiões. Dionísio é o sol dos iniciados; Apolo será a luz da Grécia; os Anfictiões, os guardiões da justiça.”

 

O hierofante e seu discípulo tinham alcançado o fundo do vale.

 

Diante deles, uma clareira, grandes maciços de bosques sombrios, tendas e homens deitados por terra. Ao fundo da floresta, fogueiras agonizantes, tochas vacilantes. Orfeu caminhava tranquilamente em meio aos trácios, adormecidos e fatigados após uma orgia noturna. Uma sentinela, que velava ainda, perguntou-lhe o nome. E Orfeu respondeu:

 

- Eu sou um mensageiro de Júpiter. Chama os teus chefes.

 

“Um sacerdote do templo!. . .” Este grito da sentinela ecoou como um sinal de alarme em todo o acampamento. Armam-se, chamam-se, as espadas brilham, os chefes acorrem espantados e cercam o pontífice.

 

– Quem és tu? O que vens fazer aqui?

 

– Eu sou um enviado do templo. Vós todos, reis, chefes, guerreiros da Trácia, renunciai à luta contra os filhos da luz e reconhecei a divindade de Júpiter e de Apolo. Os Deuses do alto vos falam por minha boca. Venho como amigo, se me escutardes; como juiz, se recusardes a me ouvir.

 

Fala! – disseram os chefes.

 

De pé, sob um grande olmo, Orfeu falou. Falou dos benefícios dos Deuses, da magia da luz celeste, da vida pura que ele levava lá no alto, com seus irmãos iniciados, sob o olhar do grande Urano e que ele queria transmitir a todos os homens. Prometeu apaziguar as discórdias, curar as doenças, ensinar a semear as sementes que produzem os mais belos frutos da terra, e as mais preciosas ainda, aquelas que produzem os frutos divinos da vida: a alegria, o amor, a beleza.

 

Enquanto ele falava, sua voz grave e doce vibrava como as cordas de uma lira e penetrava cada vez mais no coração dos trácios comovidos. Do fundo dos bosques, as Bacantes, curiosas, carregando suas tochas, tinham vindo também, atraídas pelo som de uma voz humana. Vestidas apenas com peles de panteras, elas vieram exibir seus seios morenos e seus flancos soberbos. Ao clarão dos archotes noturnos, seus olhos brilhavam de luxúria e de crueldade. Mas, pouco a pouco, a voz de Orfeu as serenou e elas se agruparam em torno dele, sentando-se a seus pés como feras domadas. Umas, tomadas de remorso, baixavam o olhar sombrio; outras escutavam encantadas. E os trácios comovidos, murmuravam entre si: “É um Deus quem fala, é o próprio Apolo quem fascina as bacantes!”

 

No entanto, do fundo dos bosques, Aglaonice espreitava. A grande sacerdotisa de Hécate, vendo os trácios imóveis e as Bacantes arrastadas por uma magia mais forte do que a sua, anteviu a vitória do céu sobre o inferno e seu poder maldito desmoronar-se nas trevas de onde saíra, ante a palavra do divino sedutor. Ela rugiu e, atirando-se diante de Orfeu com um esforço violento, disse:

 

– Um Deus, dizeis vós? E eu vos digo que é Orfeu, um homem como vós, um mágico que vos engana, um tirano que se apropria de uma coroa. Um Deus, dizeis vós? O filho de Apolo? Ele? O sacerdote?

O pontífice orgulhoso? Atacai-o! Se ele é Deus, que se defenda... e se eu minto, que me despedacem!

 

Aglaonice estava acompanhada por alguns chefes excitados por seus malefícios e inflamados por seu ódio. Eles arrojaram-se sobre o hierofante. Orfeu soltou um grito e caiu ferido por suas espadas.

 

Estendeu a mão para seu discípulo e disse:

 

- Eu morro, mas os Deuses estão vivos!

 

Depois expirou. Inclinada sobre seu cadáver, a mágica de Tessália, cujo semblante se assemelhava agora ao de Tisifona, espreitava com alegria selvagem o último sopro do profeta e se apressava em arrancar um oráculo de sua vítima. Mas, qual não foi o espanto da tessaliana ao ver aquela cabeça cadavérica se reanimar ao clarão flutuante da tocha, um pálido rubor espalhar-se na fisionomia do morto, seus olhos se reabrirem, muito grandes, e um olhar profundo, doce e terrível se fixar nela... enquanto que uma voz estranha – a voz de Orfeu – escapava ainda uma vez daqueles lábios trêmulos para pronunciar distintamente estas quatro sílabas melodiosas e vingadoras:

 

– Eurídice!

 

Diante daquele olhar e daquela voz, a sacerdotisa apavorada recuou, gritando: – “Ele não está morto! Eles vão me perseguir para sempre! Orfeu. . . Eurídice!” Bradando assim, Aglaonice desapareceu como que chicoteada por cem Fúrias. As Bacantes, desvairadas, e os trácios, compreendendo o horror de seu crime, desapareceram na noite, com gritos de angústia.

 

O discípulo ficou só junto ao corpo do mestre. E quando um raio sinistro de Hécate veio iluminar o linho ensanguentado e a face pálida do grande iniciador, pareceu-lhe que o vale, as montanhas e as florestas profundas gemiam como uma grande lira.

 

O corpo de Orfeu foi queimado pelos sacerdotes, e suas cinzas transportadas para um longínquo santuário de Apolo, onde foram veneradas como as de um Deus. Nenhum dos rebeldes ousou subir ao templo de Kaukaión. A tradição de Orfeu, sua ciência e seus mistérios ali se perpetuaram e se difundiram por todos os templos de Júpiter e Apolo.

 

Os poetas gregos diziam que Apolo ficara enciumado de Orfeu, porque este era invocado mais frequentemente do que ele. A verdade é que enquanto os poetas cantavam Apolo, os grandes iniciados invocavam a alma de Orfeu, salvador e adivinho.

 

Mais tarde, os trácios, convertidos à religião de Orfeu, contavam que ele descera aos infernos para lá procurar a alma da esposa, e que as Bacantes, ciumentas de seu amor eterno, o haviam feito em pedaços, mas que sua cabeça, lançada no Erebo e levada por suas ondas tempestuosas, chamava ainda: Eurídice!

 

Assim os trácios cantaram como um profeta aquele que eles haviam matado como um criminoso e que os havia convertido por meio de sua morte. Assim o verbo órfico se infiltrou misteriosamente nas veias da Hélade, pelas vias secretas dos santuários e da iniciação. Os deuses responderam à sua voz, como no templo um coro de iniciados se afina aos sons de uma lira invisível – e a alma de Orfeu tornou-se a alma da Grécia. 

*Extraído do livro de Edouard Shuré.

 
 



  

Num período indefinido, situado pela historiografia a cerca de séc. VIII a.C., bem como por algumas tradições esotéricas entre 3000 e 2000 a.C. Orfeu é considerado um Avatar, ou seja, um dos grandes mestres e renovadores da alma humana, a volta do qual os discípulos criam religiões inspiradas neste “Ser Divino”.

 

Em seu livro Jorge Angel Livraga, escreveu: “A feitiçaria e os cultos femininos impuseram-se paulatinamente, e, os último defensores da pureza e do altruísmo foram exterminados. É neste grupo que aparece Orfeu, resplandecente de beleza física e moral, canalizando a energia da sabedoria e do verdadeiro amor. O misticismo era sua característica e o amor era sua radiante vestimenta.

Foi relacionado, miticamente, com Eurídice, a amada precipitada aos infernos do abismo. Tal como Innana suméria, Perséfone da Grécia clássica, eram a representação da alma humana caída nas cavernas da matéria e dos esforços de consciência para unir-se misticamente a ela, resgatando-a ao mundo luminoso que lhe é natural. Orfeu, ao fim de mil peripécias, nas quais, como todo Homem-Deus baixa por três vezes ao submundo, morrendo no final despedaçado pelo povo que o rejeita. Logo, ascende ao céu...

A hoje, denominada Mitologia Grega... Esta ensinou ao mundo que existia uma deidade trina: Um Pai Celeste, uma Mãe Celeste e um Filho de ambos, simbolizado pelo Sol visível, e entre Eles e os humanos deu a conhecer uma imensa genealogia de deuses, semi-deuses e heróis. Na sua faceta esotérica, Orfeu foi o Grande Mestre, o fundador dos mistérios órficos, que como uma continuação mágica dos egípcios, ganharam em beleza e flexibilidade,...

Os fiéis imaginaram o Mestre como um belíssimo jovem tocando a lira das sete cordas de ouro – símbolo do Espírito fazendo música com as suas sete vestimentas purificadas – emitindo música, imagem humana da Harmonia Universal Absoluta.

Em Elêusis, célebre pelos seus mistérios, cantava-se este hino órfico, através do qual, podemos constatar a consciência monoteísta que todos os iniciados da antiguidade possuíam: <Contempla a natureza divina, ilumina o teu entendimento, domina o coração, caminha pelas vias da justiça. Tem sempre perante a tua visão o Deus do Céu. Ele é o único. Existe por si mesmo e todos os outros seres derivam d’Ele e por Ele estão sustidos. Nenhum mortal jamais o viu, mas Ele tudo vê.>

 



 

Hino órfico a Zeus

 

Zeus foi o primeiro e o último, o princípio e o meio. D’Ele provêm todas as coisas. Zeus foi homem e virgem imortal. Zeus é chama de fogo, a fonte do mar. Zeus é o Sol e a Lua. Zeus é Rei. Ele, só, criou todas as coisas. É uma força, um deus, grande princípio de tudo. Um único corpo excelente que abraça todos os seres, fogo, água, terra, éter, noite, dia e Métis, a primeira criadora e o corpo sedutor. Todos estes seres estão contidos no imenso corpo de Zeus.

 



 

 

Hino órfico à Natureza

 

Natureza, mãe divina universal, de tantas formas Mãe, celeste, venerável, espírito multicriador, rainha que indomada tudo dominas, tudo governas, brilhas em todo lugar, omnipotente, venerada eternamente, divindade superior a todas, indestrutível, primogênita, antiquíssima....comum a todos, solitário e incomunicável, pai de ti própria sem pai, que com força varonil produzes tudo, tudo sabes, tudo ofertas, ama de leite e rainha de tudo, frecunda produtora de tudo quanto cresce, dissolvedora de tudo quanto madura, verdadeiro pai e mãe, ama de leite e sustentação de todas as coisas.

 



 



 

 

ORFEU NA MITOLOGIA

 

 

Na Mitologia grega, Orfeu era um poeta e um músico, filho da musa Calíope. Era o mais talentoso músico que já viveu. Quando tocava sua lira, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento. Ele ganhou a lira de Apolo — alguns dizem que Apolo era seu pai.

 

Ele foi um dos 50 homens que atenderam ao chamado de Jasão, os argonautas, em busca do Velocino de Ouro. Acalmava as brigas que aconteciam no navio com sua lira. Durante a viagem de volta, Orfeu salvou os outros tripulantes quando seu canto silenciou as sereias, posteriormente responsáveis pelos naufrágios de inúmeras embarcações.

 Casamento de Orfeu e Eurídice

 

Orfeu apaixonou-se por Eurídice e casou-se com ela. Mas Eurídice era tão bonita que, pouco tempo depois do casamento, atraiu um apicultor chamado Aristeu. Quando ela recusou suas atenções, ele a perseguiu. Tentando escapar, ela tropeçou em uma serpente que a picou e a matou. Por causa disso, as ninfas, companheiras de Eurídice, fizeram todas as suas abelhas morrerem.
  

Eurídice é picada por um escorpião

 

Orfeu ficou transtornado de tristeza. Levando sua lira, foi até o Mundo dos Mortos, para tentar trazê-la de volta. A canção pungente e emocionada de sua lira convenceu o barqueiro Caronte a levá-lo vivo pelo Rio Estige. A canção da lira adormeceu Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava os portões; seu tom carinhoso aliviou os tormentos dos condenados.

 

Caronte
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Finalmente Orfeu chegou ao trono de Hades. O rei dos mortos ficou irritado ao ver que um vivo tinha entrado em seu domínio, mas a agonia na música de Orfeu o comoveu, e ele chorou lágrimas de ferro. Sua esposa, a deusa Perséfone, implorou-lhe que atendesse ao pedido de Orfeu. Assim, Hades atendeu seu desejo. Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos. Mas com uma única condição: que ele não olhasse para ela até que ela, outra vez, estivesse à luz do sol.

 

Orfeu partiu pela trilha íngreme que levava para fora do escuro reino da morte, tocando músicas de alegria e celebração enquanto caminhava, para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Ele não olhou nenhuma vez para trás, até atingir a luz do sol. Mas então se virou, para se certificar de que Eurídice estava seguindo-o.

 

Orfeu conduzindo Eurídices para fora da escuridão

 

Por um momento ele a viu, perto da saída do túnel escuro, perto da vida outra vez. Mas enquanto ele olhava, ela se tornou de novo um fino fantasma, seu grito final de amor e pena não mais do que um suspiro na brisa que saía do Mundo dos Mortos. Ele a havia perdido para sempre. Em total desespero, Orfeu se tornou amargo. Recusava-se a olhar para qualquer outra mulher, não querendo se lembrar da perda de sua amada. Furiosas por terem sido desprezadas, um grupo de mulheres selvagens chamadas Mênades caíram sobre ele, frenéticas, atirando dardos. Os dardos de nada valiam contra a música do lirista, mas elas, abafando sua música com gritos, conseguiram atingi-lo e o mataram. Depois, despedaçaram seu corpo e jogaram sua cabeça cortada no Rio Hebrus, e ela flutuou, ainda cantando, "Eurídice! Eurídice!"

 

 



Ninfas encontram a cabeça de Orfeu

 

Chorando, as nove musas reuniram seus pedaços e os enterraram no Monte Olimpo. Dizem que, desde então, os rouxinóis das proximidades cantaram mais docemente do que os outros. Pois Orfeu, na morte, se uniu a sua amada Eurídice.


Quanto às Mênades, que tão cruelmente mataram Orfeu, os deuses não lhes concederam a misericórdia da morte. Quando elas bateram os pés na terra, em triunfo, sentiram seus dedos se espicharem e entrarem no solo. Quanto mais tentavam tirá-los, mais profundamente eles se enraizavam. Suas pernas se tornaram madeira pesada, e também seus corpos, até que elas se transformaram em silenciosos carvalhos. E assim permaneceram pelos anos, batidas pelos ventos furiosos que antes se emocionavam ao som da lira de Orfeu, até que por fim seus troncos mortos e vazios caíram ao chão.

 

 


Outra versão...

 
Orfeu
 

Grande herói da Trácia, Orfeu era conhecido não pelas suas qualidades de guerreiro, mas pelas suas qualidades musicais. Filho de Apolo e da musa Calíope, recebeu do pai uma lira como presente e aprendeu a tocar com tanta dedicação e beleza, que ninguém conseguia ficar indiferente ao encanto da sua música. Tanto os seres humanos como os animais, e diz-se que até as árvores e os rochedos, se rendiam ao seu fascínio.

 

Orfeu amava apaixonadamente a ninfa Eurídice. No dia do casamento de ambos, esteve presente Himeneu para abençoar a união, mas o fumo da sua tocha fez lacrimejar os noivos, o que não trouxe augúrios favoráveis. Pouco tempo depois, Eurídice passeava com as ninfas, quando foi surpreendida pelo pastor Aristeu, que, ao vê-la, se apaixonou perdidamente e tentou conquistá-la. Na sua fuga, Eurídice pisou uma cobra e morreu da mordedura que esta lhe fez no pé.

 

Orfeu desceu ao Mundo dos mortos

 

Orfeu, inconsolável, tocou e cantou aos homens e aos deuses, mas nada conseguiu. Decidiu, então, descer ao reino dos mortos para conseguir recuperar Eurídice. Perante o trono de Hades e Perséfone, Orfeu cantou o seu desgosto e o seu amor dizendo que, se não lhe devolvessem Eurídice, ele próprio ficaria ali com ela, no reino dos mortos. Todos os fantasmas que o ouviam choravam e Hades e Perséfone ficaram tão comovidos que lhe devolveram Eurídice. Mas com uma condição: Orfeu poderia levar Eurídice, mas não poderia olhá-la antes de terem alcançado o mundo superior. Caminhando na frente, Orfeu, que estava quase a chegar aos portões de Hades, com receio de ter sido enganado por Hades, virou-se para trás para confirmar se Eurídice o seguia. Esta, com os olhos cheios de lágrimas, foi levada para o mundo dos mortos, por uma força irreversível. Orfeu tentou alcançá-la, mas sem êxito.

 

Orfeu perdeu Eurídice

 

Profundamente triste, Orfeu ficou na margem do rio, durante sete dias, sem comer nem dormir, suplicando a volta de Eurídice. Depois, vagueou triste e solitário pelo mundo, sem nunca mais querer saber de mulher alguma e repelindo todas aquelas que o tentavam seduzir, até que um dia, as mulheres da Trácia, enfurecidas pelo seu desprezo, o mataram. O seu corpo foi atirado ao rio Ebro e levado até à ilha de Lesbos, onde, durante muito tempo, a cabeça de Orfeu, presa numa rocha, proferia oráculos. A sua lira foi colocada num templo de Lesbos.

 

Outra lenda diz que as musas enterraram Orfeu, em Limetra, num túmulo onde o rouxinol canta mais suavemente do que em qualquer outra parte da Grécia e a lira do jovem apaixonado foi colocada por Zeus entre as estrelas. Orfeu encontrou por fim Eurídice e, abraçando-a, nunca mais deixou de contemplá-la.

 

 

Orfeu e Eurídice

 




 

Monólogo de Orfeu
(Por Vinicius de Moraes)

 

Mulher mais adorada!
Agora que não estás,
deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.
E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.
Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.
Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres -
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo.

 
 

 
 

LIRA – Instrumento Musical

 
O Instrumento de Sete Cordas

 

A lira é um instrumento de cordas conhecido pela sua vasta utilização durante a antiguidade. As récitas poéticas dos antigos gregos eram acompanhados pelo seu som, ainda que o instrumento não tivesse origem helênica. O gênero de instrumento a que pertence a lira terá tido o seu alvorecer na Ásia, inferindo-se que terá entrado na Grécia através da Trácia ou da Lídia. Enquanto que os primeiros intérpretes, heróicos, e aqueles a quem se reconhecem melhoramentos no instrumento eram das colônias da Iónia, da Eólia ou da costa adjacente ao império Lídio, os mestres propostos pela mitologia grega eram Trácios: Orfeu, Museu e Tamíris.

 

A estrutura de uma lira consiste num corpo oco - caixa de ressonância - do qual partem, verticalmente, dois braços (montantes), que, por vezes, também são ocos. Junto ao topo, os braços ficam ligados a uma barra - o jugo - que liga as cordas até outra saliência de madeira transversal - o cavalete - disposta junto à caixa de ressonância e que lhe transmite as vibrações das cordas. As cordas são percutidas com a ajuda de um plectro. O número de cordas variava, geralmente entre seis e oito.

 

As cordas eram feitas de tripa ou de tendões de boi ou carneiro. Há quem afirme que os braços primitivos deste instrumento eram feitos com chifres de cabra.

 

No Império Bizantino e na Grécia moderna, liras são instrumentos tocados com arco. Na música tradicional grega viva, há três tipos predominantes de lira: a lira cretense, a lira de Constantinopla (polítiki lyra) e a lira do Ponto (pontiakí lyra). São instrumentos pouco menores do que um violino, com três cordas, que se tocam apoiados no colo. As liras desempenham papel de instrumentos de solo na música grega.

 


* Horácio, Arte Poética, (Lisboa, Inquérito, 1984), pp.113-114.
* Marcuse, "As Imagens de Orfeu e Narciso", in Eros e Civilização, (Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1968), p.155.
* Os Mestres da Humanidade; Karl Jaspers; Editora Almedina; 2003

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lira_(instrumento_musical)

 

 

 


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